Uma nova politização da cultura?

A música brasileira foi simplificada e despolitizada nas últimas décadas. Quando se analisa o vocabulário, os temas e a construção harmônica, salvo algumas exceções do rap, samba e da canção popular, a produção musical passou por profundo rebaixamento na complexidade das composições, seja do ponto do vista estrito da música, seja das narrativas e temas das letras.

No Brasil, as décadas de 1960 e 1970 foram marcadas por um crescente processo de politização da cultura. A produção do período abordou intensamente questões ligadas à transformação dos padrões sociais e de comportamento, mobilizada em torno de problemas como a desigualdade social e o combate ao imperialismo norte-americano. O entusiasmo em torno do papel da arte como instrumento direto de transformação social tinha como referências uma estética nacional-popular e a arte ligada ao realismo socialista.

É evidente que a vinculação de uma mensagem política dentro de uma linguagem artística de grande apelo popular representava um desafio específico para os artistas, mas que resultou uma safra de artistas do porte de Chico Buarque, Edu Lobo, João Bosco, Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Beth Carvalho, Geraldo Vandré, Clara Nunes, Milton Nascimento, João do Vale, Gonzaguinha, Martinho da Vila, entre muitos outros.

Esta politização também se refletia nos desfiles de Carnaval. Em 1960, o Salgueiro venceu o carnaval com “Quilombo dos Palmares”, considerado um marco, ao tratar da luta dos negros pela liberdade e da resistência capitaneada por Zumbi. Com “Heróis da liberdade”, em 1969, o Império Serrano tocou em um tema sensível dentro do ambiente de repressão crescente do AI-5.

Entretanto, a partir dos anos 1990, o ímpeto crítico da arte arrefeceu. Muitos passaram a considerar que uma arte politizada seria pior e que a arte deveria ser pura, sem colocar o dedo em questões sociais e políticas. O “pós-moderno”, exaltando uma arte sem sentido visando apenas entreter e divertir passou a dominar a cenário artístico brasileiro. Os interesses do mercado passaram a predominar sobre os interesses populares.

Será que agora este cenário estaria mudando?

Depois de quase 3 anos de forte ofensiva conservadora das classes dominantes estrangeiras e locais, em 2016 um golpe de Estado travestido de impeachment trouxe ao Brasil um intenso caos político, econômico e institucional. Neste contexto, muito artistas participaram dos movimentos golpistas, convocando mobilizações, fazendo vídeos da internet e emprestando sua imagem para dar legitimidade ao que veio a ser um golpe de Estado. Outros se silenciaram diante de tal processo. Preferiram simplesmente não se envolver. Acreditaram que não tinham nada a ver com os destinos da nação. Mesmo situações de arbitrariedade e explícita injustiça foram vistos com profunda indiferença.

Porém, desde o golpe de 2016, fica cada vez mais claro que não se trata apenas do desmonte do Estado, das instituições democráticas, dos direitos garantidos pela Constituição de 1988 e da venda das riquezas nacionais (Amazônia, pré-sal, terra para estrangeiros, etc), mas também de uma intensa ofensiva conservadora contra a arte.

Neste ano de 2017, diferentes manifestações artísticas foram criminalizadas e censuradas, inclusive com ajuda das instituições que deveriam garantir a liberdade de expressão. Em julho, a tradicional Roda de Samba Pede Teresa, realizada todas as sextas-feiras na Praça Tiradentes no Centro do Rio, foi impedida de acontecer. Em agosto, a exposição “Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira”, que estava em cartaz no Santander Cultural de Porto Alegre, foi cancelada por pressão de grupos conservadores. A exposição também foi proibida no Museu de Arte do Rio de Janeiro.

Em setembro, um juiz de São Paulo proibiu a apresentação de “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” em um teatro no interior do estado, protagonizada por uma atriz transexual, atendendo a pedidos de grupos de extrema-direita. Também em setembro, no Museu de Arte Contemporânea do Mato Grosso do Sul, a polícia confiscou um quadro porque um grupo de deputados considerou que ele fazia apologia a pedofilia. No fim de setembro, a exposição “Faça você mesmo sua Capela Sistina”, do artista mineiro Pedro Moraleida foi alvo de protestos, inclusive com manifestantes tentando invadir a Grande Galeria Alberto da Veiga Guinard, onde as obras estão expostas.

No começo de outubro, foi a vez de uma exposição no Museu de Arte Moderna em São Paulo ser atacada por grupos de extrema-direita que foram até o local para “protestar” contra a obra La Bête do artista Wagner Schwartz. A alegação seria o “conteúdo erotizante” da obra na qual o artista se apresenta nu. Funcionários do museu foram agredidos e a obra acabou sendo retirada.

E em 30 de outubro, Caetano Veloso foi proibido de fazer uma apresentação numa ocupação do MTST. O Ministério Público em conjunto com a prefeitura de São Bernardo do Campo impediu o show. A juíza do caso estipulou multa de R$ 500 mil se a decisão fosse descumprida bem como determinou ação policial no local. Caetano disse que foi a primeira vez em que tem um show cancelado no Brasil desde a ditadura (desde 1985).

Está em curso um processo de forte criminalização e de difamação da arte no país. Com extrema rapidez e intensa articulação política, estamos vivendo uma cruzada que ataca artistas e promove a censura. Se não reagirmos a tempo, em poucos meses teremos a consolidação da criminalização da arte, onde grupos conservadores vão decidir o que pode ou não ser produzido e visto. A cultura e a arte brasileira correm sérios riscos. Sua sobrevivência depende de sua capacidade de sua politização, enfrentando as contradições e dificuldades inerentes de tal processo.

 

Fernando Marcelino é músico e cientista político.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s